The Ribbon Queen é uma banda desenhada publicada em 2024 da autoria de Garth Ennis e Jacen Burrows.
Garth Ennis é um dos autores de uma das minhas obras favoritas dentro do mundo dos comics, Preacher. Ao procurar por novas leituras, deparei-me com esta recomendação. A história, centrada numa detetive que lida com questões atuais do sistema policial americano ao mesmo tempo que investiga crimes com um lado sobrenatural, captou o meu interesse, mas foi o envolvimento de Garth Ennis como roteirista que me fez avançar para a sua leitura. Não fiquei desiludido.

Tudo começa quando Amy Sun, uma detective que tenta manter-se fiel aos seus princípios enquanto navega por um sistema policial corrupto. Quando um caso particularmente perturbador a leva a uma cena de crime brutal e inexplicável, a sua vida muda para sempre.
Confrontada com um fenómeno estranho, depressa repara que esta força oculta que continua a aparecer no seu caminho não é uma simples vigilante, mas sim uma força primordial de vingança. Esta aparece para punir os culpados de forma tão cruel quanto os seus crimes. Ao longo da obra, a linha entre o bem e o mal começa a desfocar-se à medida que Amy é arrastada para um conflito entre a moralidade, dever e sobrevivência.

A arte de Ribbon Queen, por Jacen Burrows, é detalhada e perturbadora, capturando tanto a decadência do mundo real como a aura sobrenatural da “Ribbon Queen”. As cenas de violência são bastante gráficas, mas nunca gratuitas, servindo para sublinhar o impacto emocional da história.
Amy Sun é uma protagonista fascinante. Não é uma detetive invencível, é uma mulher imperfeita, que enfrenta não só os horrores sobrenaturais da Ribbon Queen, mas também as falhas de um sistema que devia proteger os inocentes. À medida que a história avança, Amy depara-se com várias questões que são tema recorrente na atualidade, tendo referências óbvias ao movimento #metoo e Black Lives Matter, ao racismo instituído na força policial, ao abuso da força dentro desta e ao sentimento de impunidade e camaradagem sinistra que permeia muitas das instituições públicas.

Para além de Amy Sun, a “Ribbon Queen”, força oculta que funciona como uma espécie de “Punisher” contra predadores sexuais, é uma figura aterradora. Ennis constrói esta como algo mais do que um simples monstro ou heroína — ela é uma entidade ambígua, que tanto fascina como aterroriza. A sua presença é sempre sentida, mesmo quando não está visível, e a maneira como ela personifica a vingança faz com que o leitor questione se o fim justifica os meios.
The Ribbon Queen não é apenas uma história de terror, é uma reflexão sobre o significado da justiça numa sociedade fragmentada. Ennis coloca-nos questões difíceis: quando o sistema falha completamente, quem decide o que é certo ou errado? Até onde podemos ir para corrigir os erros do passado? O que perdemos quando cruzamos essa linha?

A tensão entre o sobrenatural e o real é usada para explorar temas como corrupção, abuso de poder e o impacto de traumas individuais e coletivos. É uma obra que, à semelhança dos melhores trabalhos de Ennis, não tem medo de mergulhar nos cantos mais escuros da psique humana.
The Ribbon Queen é uma experiência intensa e inquietante, que combina uma narrativa profunda com visuais arrepiantes. Não é uma leitura leve, mas é uma história marcante.
