Cheguei a esta série este ano, e por um caminho improvável: uma recomendação no Get Played, um podcast sobre videojogos, quando os apresentadores fizeram a lista das suas séries favoritas. Sinceramente, o “universo” Ripley nunca me tinha chamado à atenção. Este foi o meu primeiro contacto com a personagem.
Ripley é uma minissérie de oito episódios escrita e realizada na totalidade por Steven Zaillian, estreada na Netflix em 2024. Adapta The Talented Mr. Ripley, o romance de Patricia Highsmith de 1955, com Andrew Scott no papel de Tom Ripley, Johnny Flynn como Dickie Greenleaf, Dakota Fanning como Marge Sherwood e Maurizio Lombardi como o Inspector Ravini. A acção passa-se na Itália dos anos 60, e está toda filmada a preto e branco.

Quando comecei a ver, pensava que era uma série sobre alguém que se intrometia na alta sociedade expatriada em Itália sobre a desculpa de ir à procura de Richard Greenleaf. Rapidamente comecei a reparar que era mais sobre as habilidades particulares de Tom Ripley e sobre a sua estranha personalidade. A mudança começou a fazer-se sentir a partir do momento em que ele começa a imitar de forma obsessiva o comportamento de Dickie. Surpreendeu-me, mas, como a série começa com o foco no trabalho dele como falsificador em Nova Iorque, também não tinha grandes expectativas quanto às qualidades morais do protagonista.
Uma das coisas mais me agradou foi algo cada vez mais raro: a série demora o seu tempo, numa altura em que parece que todo o tipo de conteúdo tem de ser de satisfação imediata. Ripley leva o tempo que precisa para chegar ao objectivo, e cria tensão, ansiedade, suspense e confusão de uma forma que poucas séries hoje em dia conseguem. Parece ter sido feita sem o objectivo de se tornar um sucesso viral, e mais como uma confiança num trabalho de qualidade que inevitavelmente se tornará num sucesso de culto.
A série funciona como a personalidade do protagonista: ponderada, meticulosa, atenta ao pormenor. Passamos minutos a vê-lo praticar uma assinatura, experimentar roupa que não é dele, bater à máquina uma carta que não devia existir. E é aí que se percebe o que o protagonista quer. Tom almeja ao privilégio que Dickie tem e ao qual Dickie não dá o devido valor. Tom vem de um contexto de maiores dificuldades e encontrou a sua maneira particular de sobreviver; Dickie tem tudo e parece não estar satisfeito com isso. Tom não quer apenas ser Dickie. Quer tirar completo partido daquilo que Dickie desperdiça.

A fórmula a preto e branco funciona bem para o tipo de série que é. Retira as cores quentes da costa italiana e substitui-as por um ambiente mais sombrio. A fotografia é, para mim, um dos pontos mais fortes de Ripley: detalhada, com todos os planos pensados quase como um quadro, meticulosa, e de uma beleza que normalmente não se vê em televisão. Cria uma atmosfera muito convincente nas partes fulcrais da história.
Normalmente, neste tipo de séries feitas do ponto de vista americano, a Europa é tratada de uma forma idílica. Mas penso que muitos europeus se identificam bastante mais com a parte sombria das suas cidades antigas, com a antiguidade e a frieza dos muros e das muralhas, e com o aspecto sinistro de muitas das estátuas e das pinturas que as povoam. É essa a Europa que a série escolhe filmar.
Como fã de filmes noir, penso que Ripley foi buscar muita inspiração a esse universo, criando um ambiente que quase sufoca as personagens, que parece observá-las e que as vai encurralando nas suas decisões sinistras. A série consegue isso com sucesso, desde o olhar de julgamento do gato do prédio até ao ambiente claustrofóbico do elevador, do barco ou dos carros pequenos. É incrível como as enormes mansões em que Ripley habita se tornam tão pequenas nos momentos de maior tensão.

Andrew Scott é, para mim, um dos melhores actores da actualidade. Convence-me em quase tudo aquilo em que entra, é o meu Moriarty favorito e deixou uma personagem inesquecível em Fleabag. Aqui, a interpretação é excelente, e mantém-se quase sempre fria. É também uma personagem que, durante a maior parte da série, parece muito desconfortável na sua própria pele. O que torna maior a surpresa quando, perto do final, percebemos que essa encenação fazia parte do plano. Eu também fui enganado pelo falsificador.
No final, não fiquei a torcer por Tom. Mas também não estava propriamente contra ele. As personagens que o rodeiam não geram muita empatia, e é rara a série em que o vilão ganha. Embora não torcesse pelo protagonista, o plano elaborado por ele mereceu sem dúvida a minha admiração. E tenho de admitir que é difícil torcer contra Andrew Scott, dado o carisma que tem (acho que ninguém torcia completamente contra o “seu” Moriarty em Sherlock).
Cria um certo desconforto torcer pelo vilão. Mas a série leva-nos cuidadosamente até esse lugar, ao ir destruindo lentamente a empatia que sentimos por qualquer pessoa que o rodeia. Quando damos por nós, já lá estamos.





