Cheguei a este livro por acaso, numa livraria no Porto. Estava destacado numa das mesas, e a Raquel (a minha esposa) disse-me que tinha ouvido falar bem dele. A capa e o facto de ser relativo a Taiwan chamaram-me à atenção, pois tenho um certo fascínio pela ilha, pela sua cultura e pela sua literatura.
Esse fascínio começou numa viagem que fiz em 2019. Na altura, decidi ir a Taiwan por ser um voo curto desde Fuzhou, na China, onde estava a trabalhar. Já tinha algum interesse pelo território, não só devido ao cinema, mas também pela música de bandas como os deca joins ou os No Party for Caodong. Há uns anos li The Stolen Bicycle, de Wu Ming-yi, que nos pinta o retrato da Taiwan do século XX, e fiquei desde então fascinado com a hipótese de voltar a visitar o território pela literatura. Como tenho uma viagem marcada a Taiwan em breve, foi a motivação ideal para investir na leitura de Taiwan Travelogue.
Taiwan Travelogue é um romance de Yáng Shuāng-zǐ, publicado originalmente em mandarim em 2020 e traduzido para inglês por Lin King. Ganhou o National Book Award para literatura traduzida em 2024 e, este ano, o Booker Internacional, o primeiro livro escrito em mandarim a consegui-lo. A acção passa-se em 1938, e acompanha Aoyama Chizuko, uma jovem romancista japonesa convidada a viajar por Taiwan sob domínio japonês, e Ō Chizuru, a intérprete taiwanesa que a acompanha. Os nomes são propositadamente parecidos. A viagem faz-se de comboio e organiza-se à volta da comida.
Uma das coisas que achei mais interessantes neste livro, sobretudo em comparação com The Stolen Bicycle, foi ver o país não pelos olhos de um nativo, mas pelos de um colonizador com “boas intenções”. É uma perspectiva fascinante sobre Taiwan à qual ainda não tinha sido exposto.

Aoyama Chizuko, protagonista e “autora” das crónicas de viagem, é uma personagem fascinante pela forma como não se apercebe do ridículo, em certas situações, das suas boas intenções. Embora se coloque do lado dos oprimidos, na realidade não se encontra nessa posição. Durante grande parte da obra está completamente alheia às suas próprias acções ofensivas, ou não consegue ter uma visão completa da complexidade da situação emocional e social em que a sua tradutora se encontra. Pinta-se como uma salvadora, mas acaba, na maior parte das vezes, a ser salva sem sequer se aperceber.
O retrato que Yáng Shuāng-zǐ faz dela não é cruel nem generoso. Sincero é a palavra mais acertada, porque não cria um monstro nem um santo. Cria uma pessoa empática, mas com falhas, alguém que nutre um carinho real pela sua tradutora, mas que demora bastante tempo até se aperceber da realidade em que está inserida. É uma postura corajosa da autora, e por isso mesmo convincente. Tenta ao máximo humanizar e tornar credível a humanidade de Aoyama, sendo fácil acreditar que esta pessoa existiu mesmo e não é apenas um fragmento da imaginação de quem a escreveu.
Ō Chizuru mantém sempre um certo mistério à sua volta. Só mesmo no final da obra é que temos algum levantar da cortina quanto ao seu passado e à sua vida pessoal. Durante a maior parte do livro é pintada por Aoyama como a tradutora e companheira ideal, oprimida pela sociedade e pela cultura local, e em necessidade de ser salva. Na realidade, é uma personagem muito mais complexa. As maiores revelações sobre ela não estão na história principal, mas nas notas de tradutor, no aparato que rodeia o texto e que acompanha a procura por Chizuru depois da publicação da obra. A verdade sobre a intérprete não está no texto, está nas margens do texto, fora do alcance de quem a estava a descrever.
A viagem faz-se a comer, e, neste campo, o livro é um triunfo, uma ode à gastronomia taiwanesa na sua totalidade. Não há para mim uma cena que se destaque mais do que as outras, porque o amor demonstrado por ambas pela comida pareceu-me sempre sincero, mesmo existindo entre elas uma relação desequilibrada em termos de poder. O desconforto chega justamente quando o prazer desaparece, depois da ruptura entre as duas, quando Aoyama começa a comer sozinha e deixa de ter tanta paixão pela comida. A ruptura acontece porque Aoyama nunca se apercebe de que Chizuru não precisa de ajuda. Que é auto-suficiente, que é uma sobrevivente, e que é totalmente capaz de dirigir a vida na direcção que quer.

O livro é, apesar de tudo, um romance. Há uma cumplicidade, um carinho e detalhes preciosos que nos levam a assumir que a relação entre as duas ia para além da amizade, que existe ali uma mistura de paixão, fascínio e devoção pela personalidade uma da outra.
O original mistura mandarim, taiwanês, hakka e japonês, e as personagens estão constantemente a passar de uma língua para a outra. A tradução de Lin King faz o melhor trabalho possível a expor essas diferenças, mas, tal como acontece na tradução de The Stolen Bicycle, é de certa forma impossível chegar a esse nível de detalhe. O mesmo acontece na tradução de qualquer língua: a não ser que o leitor tenha um grande conhecimento do local em questão, há sempre um limite ao alcance que o tradutor consegue ter.
Como vivi em Fujian e já estive em Taiwan, tenho algum conhecimento dos dialectos locais, e isso aumentou o meu entusiasmo durante a leitura. No entanto, não creio que esse conhecimento seja necessário para apreciar a obra, pois Lin King faz um excelente trabalho e consegue pintar um retrato fantástico mesmo para quem não tem conhecimento das várias línguas presentes no livro.
Há uma coisa que devo confessar. Só agora, ao escrever este texto e ao pesquisar mais sobre a obra, é que me apercebi de que o livro é completamente ficção, e não um diário de viagem traduzido. Acreditei por completo que era um texto histórico recuperado. É incrivelmente credível e detalhado, e engana o leitor com facilidade, sendo eu próprio prova disso.
Deu-me também imensa vontade de fazer a minha própria jornada gastronómica na próxima visita a Taiwan.





